Oceano de outro mundo
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 12 de Outubro de 2026 ás 08h 54min
Oceano de Outro Mundo
Rosy Neves
Os olhos dele são dois fios de Bósforos,
acesos sob a pele da noite,
que descem em silêncio,
um para o Sul,
outro para o Norte.
Ninguém sabe onde começam,
nem que estrela os conduz.
Apenas seguem, lentos,
como rios cansados de procurar
a margem certa do mundo.
Descem por dentro do rosto,
atravessam a sombra dos lábios,
e carregam consigo
tudo aquilo que ele nunca disse,
tudo aquilo que o silêncio
aprendeu a guardar.
Um fio vai para o Sul,
onde o calor se desfaz em névoa.
O outro foge para o Norte,
onde o frio conserva
os nomes que já não podem voltar.
E ambos se encontram
no fim do mundo,
num lugar sem mapas,
onde as lágrimas dormem profundas
sob a respiração escura
de um oceano que não é deste mundo.
Ali, cada lágrima tem uma lua,
cada silêncio, uma maré,
e o coração dele, perdido,
flutua sem naufragar.
Talvez seja por isso
que seus olhos nunca se fecham por inteiro.
Há sempre uma passagem secreta,
um caminho aceso,
um fio descendo em silêncio
para algum lugar além da noite.
E quando ele olha,
o mundo se inclina,
como se também quisesse beber
daquele oceano distante
onde até a tristeza
aprendeu a dormir.