Ofício de escutar parede
| | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Manoel R. LeitePublicado em 03 de Setembro de 2026 ás 09h 51min
Escuta, a parede quando a casa silencia. Não encostes nela apenas o ouvido. Encosta a memória.
Sob a cal que perdeu o viço, sob as sucessivas demãos de tinta e os pequenos acidentes que ninguém julgou dignos de reparo, repousa uma escrita sem alfabeto. Riscos à altura de uma criança. A cicatriz quadrada de um quadro retirado. Um prego solitário. A mancha que uma estante protegeu do sol durante décadas. Pequenas inscrições de uma existência que preferiu a matéria à linguagem para deixar vestígios.
Toda casa escreve lentamente aqueles que a habitam. Não o faz com tinta. Escolhe substâncias menos obedientes: gordura dos dedos junto aos interruptores, vapor nos tetos, madeira cedendo ao peso dos passos, portas que aprendem a reclamar em certas madrugadas. A intimidade possui sua própria arqueologia. Basta permanecer tempo suficiente diante de uma parede para perceber que superfície alguma é verdadeiramente lisa.
Repara naquela marca próxima ao chão. Talvez tenha vindo de um móvel arrastado numa mudança, ou, uma brincadeira interrompida por uma repreensão. A casa não explica. Conserva. Esse é o privilégio das paredes: conhecerem sem interpretar.
Ouviram promessas pronunciadas com a solenidade de quem acreditava possuir o futuro e assistiram, anos depois, à mesma voz pedir licença para partir. Receberam o primeiro choro de alguém e, muito mais tarde, o silêncio deixado por sua ausência. Testemunharam refeições demoradas, febres, contas impossíveis, cartas abertas com mãos inquietas, risos desproporcionais ao motivo, reconciliações que ninguém fora dali conheceria. Paredes sabem que grande parte da vida não chega aos retratos.
Escuta aquela cozinha vazia. Em algum estrato do reboco ainda parece permanecer o rumor das louças, o golpe discreto de uma faca sobre madeira, água fervendo antes que todos acordassem. Certos afetos nunca aprenderam discursos. Serviram café. Costuraram botões. Deixaram a parte mais macia do pão para outra pessoa. Fecharam janelas quando o vento mudou. Chamamos isso de costume porque algumas formas de amor nos constrangem pela simplicidade.
Mas uma casa sabe. Sabe quanto afeto pode caber no gesto de deixar uma luz acesa no corredor. Sabe que alguém pode esperar durante anos sem jamais dizer que espera. Sabe que certas despedidas começaram muito antes de a porta finalmente se fechar. Olha a parede do quarto. Observa onde o sol perdeu força. Altera a tonalidade do que permanece.
A mesa continua mesa, a janela continua aberta para a mesma direção, a manhã conserva sua pontualidade. Contudo, alguma coisa muda na incidência da luz. É por isso que certas casas guardam pessoas mesmo depois de vazias.
Parede demolida ainda reaparece em sonhos. Corredor perdido continua possuindo extensão. Podemos esquecer a disposição exata dos cômodos e conservar, contudo, a temperatura de determinado chão sob os pés descalços. Corpo arquiva o que a inteligência dispensa.
É possível que não recordes o ano. Pouco importa. Memória não obedece ao calendário. Prefere cheiros, texturas, ângulos de claridade. Uma voz chamando de outro cômodo. O rangido particular de um portão. Chuva batendo contra telhas. Odor de roupa guardada. Frio de uma parede encostada ao rosto. Quase nada disso pode ser provado. Ainda assim, sustenta uma vida.
Escutar paredes exige aceitar essa ciência imperfeita. Nem tudo que permanece pode ser documentado. Nem tudo que desapareceu deixou de existir. Certas casas continuam dentro de nós sem endereço. Seus cômodos modificam-se com os anos. Sala talvez se torne maior do que foi. Quintal ganha árvores que nunca teve. Voz esquecida recebe palavras que talvez jamais tenha pronunciado. A memória também restaura seus monumentos e, por vezes, acrescenta-lhes janelas.
Quem poderá condená-la?
Até as cidades reconstroem suas ruínas. Ao anoitecer, uma casa silenciosa parece recolher-se para dentro de si. Madeira estala. Canos murmuram. Vento encontra pequenas frestas. Edifício respira sua fadiga. Nessas horas que as paredes mais dizem. Não oferecem frases. Devolvem presenças.
Contemplamos a estranha perseverança das coisas diante de nossa passagem. Nós partimos. Elas ficam algum tempo. Depois também partem. Restará, quem sabe, somente aquela parede que ninguém mais pode tocar, erguida num lugar inacessível da lembrança.
Se um dia voltares a ela, não procures respostas.
Aproxima o ouvido.
Talvez escutes pratos, chuva, passos, uma porta, o rumor de alguém atravessando um corredor.
Talvez não escutes nada.
Mesmo o silêncio possui espessura quando já foi habitado.
E, quem sabe seja esse o verdadeiro ofício de escutar paredes: compreender que algumas coisas somente encontram voz depois que deixaram de poder falar.