Olhos de criança

| Poesia intimista | 2025 - Antologia Junia Tainá Nogueira Fries e Convidados | Manoel R. Leite
Publicado em 31 de Março de 2026 ás 16h 58min

Carregam manhãs inteiras dentro de um olhar

Caminham sobre o chão como quem inaugura o mundo

Seguram o tempo com mãos pequenas sem pressa

Percorrem caminhos onde os adultos já desistiram

Escutam o vento e o respeitam

Sentam no chão para entender coisas simples

Riem sem calcular, nem proteger o coração

Choram como se o mundo pudesse acabar e recomeçar no mesmo instante

Guardam segredos em bolsos invisíveis feitos de imaginação

Acreditam que tudo pode ser consertado com presença e atenção

Olham para o céu sem buscar respostas

Falam com o silêncio da companhia

Confiam em promessas ainda não qubradas

Descobrem beleza onde o olhar cansado já não repousa

Transformam ausência em brincadeira

Recomeçam sem precisar nomear o que foi perdido

Criam sentido antes mesmo de

Atravessam o dia como quem não teme o que ainda não aconteceu

Se aproximam do desconhecido com uma coragem sem nome

Esquecem rápido o que machuca e lembram do que aquece

Acreditam que ser visto é tão natural quanto respirar

Esperam com paciência aquilo que ainda não sabem pedir

Vivem como se o mundo fosse sempre uma possibilidade aberta

Seguram firme aquilo que escapa aos olhos endurecidos

Constroem histórias onde só havia rotina e repetição

Encontram companhia até nos próprios pensamentos

Continuam mesmo quando não há direção definida

Olhos que não aprenderam a medir perdas nem antecipar ausências

Olhos que ainda insistem em ver o que não foi destruído

E por isso nos lembram que desistir também é algo que se aprende

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