Onde a Coruja Dorme
Quinta-feira, 14 de maio, o Barradão virou tribunal e eu virei plateia de um homem só. Sozinho na sala, de controle na mão e pipoca em modo alerta, vi o Vitória entrar como quem tem conta a acertar. Do outro lado, o Malvadão chegou achando que o Barradão era extensão do Maracanã.
Aí veio o lance. A bola pediu licença, fez curva mais fina que promessa de político e foi parar lá aonde goleiro só chega em oração: no ângulo. Entre o poste, que sustenta o gol feito coluna vertebral, e o travessão, que estica os sete metros de sentença.
É onde a coruja dorme.
E na quinta, a coruja acordou de óculos escuros pra não perder o show.
O goleiro do Malvadão voou por educação. Mirou o céu, abriu os braços, e pegou só vento e arrependimento. A bola beijou a junção com a delicadeza de quem entrega intimação. Nem tremeu a rede, tremeu o meu sofá, tremeu a Gávea inteira.
E eu, de estátua da sala, virei um templo em movimento.
Em noite fria eu secava com todas as minhas forças, quase chorei de emoção. Antes da bola beijar o ângulo, eu fiz o gesto do jogador antes do chute, pulei como se fosse eu em campo, dancei a dança do Paquetá sem pedir licença, agradeci a Deus, rezei, benzi, fiz o sinal da cruz e ainda gritei: aqui é outro patamar. A pipoca pulou da minha mão, o controle caiu, e eu bradei pro teto:
“Inacreditável! Espero que a coruja tenha filmado este lance, pra ficar eternizado, pra sempre.”
Placar fechado, Vitória classificado, Malvadão eliminado da Copa do Brasil.
A partir dali o jogo virou desfile de passe errado e cara amarrada. Cada toque parecia pagamento de boleto no caixa 24h às 23h59: nervoso, apressado, sem fé.
O Barradão virou stand-up. A torcida não cantava, recitava a piada que a gente entende: “Outro Patamar é a dança do Paquetá, meu irmão!” E não tinha VAR que desse ré. Futebol é democrático: um chute, e 90 mil planilhas de elenco milionário viram rascunho de padaria.
Então fica registrado: no dia 14 de maio, em Salvador, o Vitória provou que não existe conta bancária que impeça um chute certeiro de achar o único lugar onde nem goleiro, nem câmera, nem oração alcançam.
Onde a coruja dorme,
o Malvadão acordou eliminado.
E eu fiquei lá, dançando sozinho na sala, com o joelho doendo e a alma leve.
Salvador Bahia, 14/05/2026.
Edbento