OS "JUNHOS" DA MINHA INFÂNCIA
| | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Eidi MartinsPublicado em 30 de Junho de 2026 ás 14h 46min
Quando junho chegava,
o meu mundo mudava de cor.
Era como se o céu se abaixasse
para chegar bem pertinho da terra
e então cobri-la inteira
com bandeirinhas feitas de revistas velhas,
penduradas em barbantes,
estendidos de um canto a outro,
dançando ao vento.
No pátio do barracão da comunidade,
a fogueira ardia.
Uma montanha de lenha,
empilhada uma sobre a outra,
tão alta
que parecia alcançar as estrelas.
Seu clarão iluminava os rostos,
os sorrisos,
a esperança
e os meus sonhos.
Havia também o pau de sebo.
Nesse, nunca me atrevi a subir.
Ficava apenas olhando os meninos,
mais ousados do que eu,
desafiarem a madeira escorregadia
como se neles, o medo não existisse.
E havia uns mais corajosos,
que faziam rodas de bombril
riscarem a noite,
espalhando faíscas.
Era a felicidade colorindo o ar.
Eu também me transformava.
Minha mãe me vestia
com um vestido de chitão florido,
de saia tão rodada
que parecia dançar sozinha.
Nas costas,
um laço enorme me abraçava apertado.
Mesmo assim,
eu me sentia livre para ser menina.
Duas marias-chiquinhas
seguravam meus cabelos,
uma de cada lado da cabeça,
e as pintinhas desenhadas nas bochechas
me tornavam caipira de faz de conta,
embora a alegria fosse das mais verdadeiras.
Naquela época,
existiam missões importantíssimas.
Era preciso fisgar, na pescaria,
o peixe que escondia o número
do brinquedo que meus olhos desejavam.
Era preciso juntar uma moeda
para mandar prender o melhor amigo na cadeia,
apenas para rir da cara dele
e depois libertá-lo com um abraço.
Era preciso entregar,
com o coração disparado,
um correio elegante
e sair correndo,
antes que descobrissem
que toda a minha coragem
tinha ficado naquele
pedacinho de papel.
A festa também tinha gosto.
Gosto de maçã do amor
grudando nos dentes
e dando trabalho para desgrudar depois.
De pipoca quentinha
no saquinho de papel branco,
que aquecia minhas mãos
antes de aquecer a barriga.
De amendoim torrado com açúcar,
feito para adoçar a infância.
E de um copo de suco,
doce o bastante
para devolver o fôlego
depois de tantas brincadeiras.
Às vezes,
escondido entre os adultos,
vinha um traquito de quentão,
provado mais pela curiosidade
do que pela vontade.
Então chegava
o grande momento.
A quadrilha.
Casava-se de mentirinha
diante da comunidade inteira.
Corria no "olha a chuva!",
voltava no "já passou!",
caía na ponte malfeita do prefeito
e, logo depois,
descobria que tudo não passava
de mais uma brincadeira.
No fim da noite,
eu voltava para casa
com um saco cheio de doces
balançando nas mãos
e um coração ainda mais cheio
de tudo aquilo
que não cabia dentro dele.
Já adormecia
fazendo planos para o próximo junho,
sem imaginar
que o tempo passaria tão depressa.
Relatos das lembranças das festas juninas vividas no barracão da Comunidade Nazaré, Linha D, em Carlinda, Mato Grosso, onde passei toda a minha infância e adolescência.