Os meus olhos medonhos

Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 11 de Março de 2026 ás 09h 49min

Os meus olhos medonhos ainda tremem diante da vastidão azul,

dessa tela infinita onde o sol se pendura como um juiz silencioso.

 

Não é a luz que assusta,

não é o brilho cruel do meio-dia que me impede a elevação do olhar.

 

É o espaço.

O vazio implacável que se estende para além de qualquer compreensão humana,

uma promessa de nada vestida em anil perfeito.

 

Lembro-me de um tempo em que o céu era um convite,

um lençol fresco estendido para os sonhos mais altos.

Um lugar para onde atirar pedras e esperar que voltassem com estrelas.

 

Agora,

cada nuvem que se move,

cada rastro branco deixado por um avião,

parece um lembrete de quão pequeno sou,

de quão frágil é esta casca de carne sob a pressão daquela imensidão fria.

 

Os meus olhos,

já cansados de ver o que a terra esconde,

as sombras traiçoeiras nos cantos das salas,

o peso morto das promessas não cumpridas,

recusam-se a levantar.

 

Preferem a segurança do chão,

o concreto familiar,

a linha do horizonte que termina,

que oferece limites,

que não se desfaz em mistério.

 

Se eu erguer a cabeça agora,

temo que o céu me veja também,

esse olho cósmico, indiferente,

e me julgue pequeno demais,

ou pior,

me apague com um simples desvio de olhar.

 

É mais seguro ficar aqui,

na penumbra do meu próprio medo,

onde as ameaças são terrenas,

e o azul,

embora belo,

permanece distante,

inacessível à minha visão assombrada.

 

O medo não está no alto,

está na ausência de paredes lá em cima.

E os meus olhos, medonhos,

sabem que não há redes de segurança naquele silêncio estrelado.

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