Os olhos sombrolentos de Miguel
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 06 de Abril de 2026 ás 15h 18min
Os Olhos Sombrolentos de Miguel
Os olhos sombrolentos de Miguel,
ah, são arcanjos em queda,
duas luas negras que choram estrelas,
duas janelas abertas para o abismo do divino.
Neles, o tempo se curva,
as horas se dissolvem em névoa,
e o silêncio tem voz de trovão.
São dois mundos perdidos,
onde o amor dorme em ruínas,
onde o medo floresce em prata.
Quero ir para lá —
para dentro desse escuro que brilha,
para o ventre da noite que respira em seus olhos.
Quero ser o eco que se perde
nas cavernas do seu olhar,
a sombra que dança nas margens do seu mistério.
Miguel, anjo de asas cansadas,
teus olhos são portais de um céu esquecido,
onde os deuses se escondem do próprio fogo.
Há mares que se erguem neles,
mares de silêncio e de febre,
mares que me chamam pelo nome
que nunca pronunciei.
São duas esferas de luas, tão negras,
que o próprio firmamento se curva em reverência.
Nelas, o amor é um exílio,
a dor é uma prece,
e o desejo — um altar de cinzas.
Quero ir para lá,
onde o escuro é doce,
onde o medo é ternura,
onde o tempo se ajoelha diante da beleza.
Quero perder-me no labirinto do teu olhar,
ser poeira, ser vento, ser nada,
e ainda assim existir —
no reflexo sombrio de Miguel.
Porque há luz no teu abismo,
há canto no teu silêncio,
há eternidade no instante em que me olhas.
E quando o mundo se apaga,
restam apenas teus olhos,
duas luas negras suspensas no infinito,
onde tudo termina,
e tudo começa.