Os passarinhos vieram visitar o meu jardim

| Crônica | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 23 de Maio de 2026 ás 10h 23min

Os Passarinhos Vieram Visitar o Meu Jardim

 

Hoje pela manhã, antes mesmo que o sol abrisse completamente os olhos, ouvi um rumor delicado entre as folhas do jardim. Parecia que o vento estava rezando baixinho entre as flores. Levantei-me devagar, ainda carregando restos de sonhos nos cabelos, e fui até a janela.

 

Então os vi.

 

Os passarinhos haviam chegado.

 

Vieram em pequenos bandos de alegria, saltitando sobre os galhos da roseira, bebendo as gotas de orvalho como quem bebe estrelas líquidas. Havia um de peito amarelo que cantava com tanta ternura, que parecia conhecer os segredos antigos da manhã. Outro, pequenino e inquieto, mergulhava entre as flores de jasmim como se procurasse alguma lembrança perdida entre os perfumes.

 

Meu jardim, que ontem parecia silencioso e cansado, amanheceu cheio de música.

 

As flores ficaram mais vivas. As folhas dançaram com mais entusiasmo. Até o velho banco de madeira, esquecido sob a sombra da mangueira, parecia sorrir discretamente ao ouvir aquela sinfonia de asas.

 

Fiquei observando em silêncio.

 

Há visitas que entram pela porta. Outras entram pela alma.

 

Os passarinhos não pediram licença. Simplesmente chegaram trazendo consigo uma espécie de paz que não se explica. E enquanto cantavam, senti que alguma tristeza antiga dentro de mim começava a desfazer-se devagar, como névoa tocada pela luz.

 

Talvez Deus envie passarinhos quando percebe que o coração da gente anda precisando florescer de novo.

 

Um deles pousou perto da janela e inclinou a cabeça para mim, como se quisesse contar um segredo. Por um instante, tive vontade de perguntar se o céu também sente saudades da Terra. Mas ele apenas cantou… e naquele canto havia oceanos, infância, tardes esquecidas e pequenas eternidades.

 

Depois partiram.

 

As asas cortaram o azul da manhã como versos soltos ao vento. O jardim voltou ao silêncio habitual, mas já não era o mesmo silêncio de antes. Ficou um perfume de presença no ar. Uma claridade mansa sobre as flores. Uma esperança pequena, porém viva, pousada dentro de mim.

 

E desde então, espero.

 

Porque agora sei: os passarinhos sempre voltam aos jardins onde a alma ainda sabe sonhar.

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