Outono desbotado
Outono | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 03 de Abril de 2026 ás 05h 21min
Ao cair da tarde, o sol se curva
num gesto lento de despedida
enquanto o outono desbota suas cores
como um retrato antigo esquecido no tempo.
O silêncio desce devagar sobre o mundo
envelopando as casas e as ruas
numa ilusão doce que nos faz crer
que o dia ainda tem muito a oferecer.
Lá no alto, os passarinhos se reúnem
em bandos que desenham caminhos invisíveis.
Eles carregam sonhos em suas asas leves,
pequenas promessas que o horizonte aceita
sem perguntar para onde vão ou o que guardam.
É um voo de esperança sobre a terra cansada,
um breve suspiro de vida no ar que esfria.
O vento chega soprando sem avisar,
varrendo as folhas secas que restaram.
Elas dançam em espirais douradas e tristes,
seguindo o ritmo de uma música que só elas ouvem.
Correm pelo asfalto e pelo jardim
como memórias que o tempo insiste em levar
para longe dos nossos pés que permanecem parados.
Tudo parece suspenso neste intervalo
entre a luz que foge e a sombra que chega.
As árvores se despem com humildade,
aceitando a mudança das estações,
enquanto o céu se tinge de tons pastéis,
borrando as linhas entre o sonho e a realidade.
Não há pressa na queda destas horas.
O outono é um mestre que ensina a soltar,
a deixar ir o que já cumpriu seu papel
para que o silêncio preencha os espaços vazios.
O mundo se aquieta em um tom de âmbar
e nos braços do entardecer compreendemos
que cada sonho carregado pelas aves
encontra seu ninho no vasto horizonte,
mesmo que a gente não consiga ver.
Fica apenas a brisa leve na face,
o barulho suave das folhas a correr
e a certeza de que o amanhã virá,
assim como o vento que hoje limpa o caminho
para que o novo possa renascer na calma
desta estação que lentamente se apaga.