Paixões efêmeras
Crônicas | 2025 - Antologia Pedro Danilo Faoro e Convidados - Paixão Avassaladora | Manoel R. LeitePublicado em 10 de Janeiro de 2026 ás 15h 24min
A paixão chegou sem pedir licença. Não bateu à porta, não anunciou seu nome, não trouxe promessas duradouras. Apenas entrou, espalhando-se pelo corpo como um incêndio súbito, desses que não se apagam com água, apenas com o tempo — e, às vezes, nem ele é suficiente.
Ela surgiu em um dia comum, desses que não guardam memória. Um encontro casual, um olhar que demorou um segundo além do necessário, um silêncio que disse mais do que qualquer palavra. Foi ali que tudo começou. Ou talvez tenha sido ali que tudo tenha sido condenado a terminar.
A paixão tem esse dom cruel: nasce inteira, mas não sabe envelhecer. No início, havia urgência. Os gestos eram rápidos, as palavras atropeladas, os corpos sempre próximos, como se o mundo pudesse acabar se houvesse distância. O toque era necessidade, não escolha. O beijo, um mergulho sem fôlego. Não havia planos, apenas instantes. E os instantes pareciam suficientes.
Ela acreditava que aquilo fosse amor.
Ele não se importava com o nome.
Viviam de encontros intensos, marcados mais pelo desejo do que pela presença. Quando estavam juntos, o tempo se dobrava; quando separados, o vazio se tornava insuportável. Era uma relação feita de excessos e ausências, de promessas não ditas e expectativas silenciosas.
A paixão não pede equilíbrio. Ela exige entrega. E eles se entregaram.
Haviam noites em que se perdiam um no outro como quem busca salvação. Em outras, se feriam com palavras afiadas, ditas sem cuidado, sem freio, sem responsabilidade. A paixão não ensina a amar — ensina a querer. E querer, quando não encontra limites, machuca.
Ela começou a perceber os sinais antes mesmo de querer aceitá-los. O brilho nos olhos já não era o mesmo. As mensagens demoravam mais. Os silêncios se tornaram longos demais. Mas a paixão é surda quando começa a morrer. Ela não aceita despedidas. Tentou reacender o fogo, sem perceber que o incêndio já havia consumido tudo o que podia.
Ele, por sua vez, sentia o peso. A intensidade que antes excitava agora cansava. O desejo seguia vivo, mas a presença se tornara incômoda. A paixão exige sempre mais, e ele já não tinha tanto para oferecer.
Foi então que veio o afastamento. Não anunciado, não explicado, apenas sentido. Uma ausência que cresceu aos poucos, até ocupar todo o espaço que antes era preenchido por urgência e calor.
Ela sofreu em silêncio. Sofreu como quem perde algo que nunca teve de verdade. Porque a paixão promete eternidade, mas entrega apenas fragmentos. E fragmentos também doem. Questionou-se, revisitou lembranças, tentou entender em que momento tudo escapou por entre os dedos. Mas não havia um ponto exato. A paixão não termina — ela se esgota.
O último encontro foi breve. Um abraço que já não envolvia, um beijo que não incendiava, um olhar que evitava permanecer. Nenhuma briga, nenhuma acusação. Apenas a constatação muda de que o que os unia já não os sustentava. Separaram-se como quem acorda de um sonho intenso demais para ser real.
Durante algum tempo, ela acreditou que jamais sentiria algo parecido novamente. Acreditou que aquela paixão havia levado consigo sua capacidade de se entregar. Mas o tempo, esse velho sábio silencioso, ensinou-lhe algo essencial: paixões não são feitas para durar — são feitas para transformar. E ela havia sido transformada.
Aprendeu sobre limites, sobre presença, sobre ausência. Aprendeu que intensidade não substitui cuidado, e que desejo não sustenta permanência. Aprendeu, sobretudo, que nem toda paixão precisa se tornar amor para ter valido a pena.
Ele seguiu seu caminho, carregando a lembrança como quem guarda uma cicatriz discreta: não dói mais, mas nunca desaparece por completo. Anos depois, ela se deu conta de que não sentia mágoa. Sentia gratidão. Aquela paixão avassaladora, embora efêmera, havia arrancado dela versões antigas, medos escondidos, silêncios acumulados. Havia ensinado que viver intensamente também implica aceitar o fim.
Porque algumas histórias não foram feitas para continuar. Foram feitas para acontecer.
E assim são as paixões efêmeras:
ardem como incêndios,
marcam como cicatrizes,
e partem deixando em nós
aquilo que nunca seremos novamente.