Quando a Paz Aprende o Caminho de Volta II
Poemas | | Jô RodriguesPublicado em 05 de Agosto de 2026 ás 18h 02min
Existe um momento em que o coração se cansa de lutar.
Não porque tenha perdido a força,
mas porque compreende
que nem toda batalha merece continuar.
Foi nesse instante,
entre o silêncio de uma despedida
e o nascer tímido de uma nova manhã,
que percebi:
a paz nunca havia morrido.
Ela apenas esperava.
Esperava que eu soltasse
os pesos que chamava de coragem,
as mágoas que confundia com justiça,
os medos que vestia de prudência.
Esperava que eu abrisse as janelas da alma,
há tanto tempo fechadas,
para que a luz pudesse entrar
sem pedir licença.
Descobri, então,
que a paz não mora nas estradas sem pedras,
nem nos dias em que tudo acontece como sonhamos.
Ela floresce justamente
onde a vida rachou o chão.
Nasce entre os escombros dos recomeços,
na lágrima que deixou de ser vergonha
para se tornar semente,
no abraço que reconstrói
o que as palavras não conseguiram salvar.
A paz tem passos leves.
Não atravessa a vida correndo.
Ela chega devagar,
como quem conhece a delicadeza
de tocar um coração ferido.
Primeiro, acalma a respiração.
Depois, silencia as culpas.
Então, quase sem ser percebida,
planta esperança
nos lugares onde só existia ausência.
Há quem pense
que a paz seja o fim das tempestades.
Eu aprendi diferente.
Ela é o pássaro
que continua cantando
mesmo quando o céu ainda guarda nuvens.
É a flor
que insiste em nascer
na fresta do concreto.
É a fé
que acende uma pequena chama
quando toda a noite parece definitiva.
Hoje já não peço
que a vida seja perfeita.
Peço apenas
que meu coração permaneça fértil
para acolher a bondade,
que meus olhos nunca desaprendam
a enxergar beleza nas pequenas coisas,
e que minhas mãos continuem abertas
para oferecer aquilo
que o mundo mais parece esquecer:
gentileza.
Porque, quando a paz aprende o caminho de volta,
ela não encontra a mesma casa.
Encontra paredes reconstruídas pela esperança,
janelas abertas para o perdão
e um jardim cultivado com paciência,
onde até as antigas dores
aprendem a florescer.
E é nesse jardim invisível,
que ninguém vê,
mas que transforma tudo ao redor,
que compreendo o mais belo dos segredos:
A paz nunca se perdeu de nós.
Ela apenas esperou
o dia em que nosso coração
estivesse disposto
a voltar para casa.