Quando o tempo caminhava devagar
Poemas | | Isolti CossetinPublicado em 01 de Julho de 2026 ás 07h 56min
Quando o tempo caminhava devagar
Houve um tempo
em que tudo passava devagar.
As manhãs de inverno
despertavam envoltas pelo cheiro do café
e pela fumaça do fogão a lenha.
As tardes de outono
demoravam a despedir-se,
como se o sol também quisesse
prolongar a conversa com as árvores.
As noites de verão
eram compridas,
bordadas por grilos,
vaga-lumes
e estrelas que pareciam nunca ter pressa.
Os dias da primavera
floresciam sem alarde.
As flores sabiam esperar.
Os pássaros também.
A infância...
Ah, a infância caminhava de mãos dadas com o tempo.
A adolescência chegava devagar,
quase pedindo licença.
A juventude estendia seus sonhos
como quem acredita
que o mundo inteiro cabe dentro de um amanhã.
O Natal parecia morar tão distante
que a espera era, por si só,
uma festa.
As férias...
Essas duravam uma eternidade.
Não havia malas prontas,
nem roteiros traçados,
nem fotografias para provar a felicidade.
Havia a roça.
Havia o campo.
Havia terra nos pés,
vento no rosto,
frutas colhidas do pé,
banhos de chuva,
o canto dos galos,
o perfume da relva molhada
e a liberdade correndo solta
pelos quintais da infância.
O ano inteiro
parecia respirar sem pressa.
As horas não fugiam.
Nós é que sabíamos habitá-las.
Hoje...
As manhãs amanhecem
e já parecem anoitecer.
As semanas escorrem pelos calendários.
Janeiro pisca
e dezembro já bate à porta.
Tudo é rápido.
Veloz.
Fugaz.
Não reclamo do tempo de agora.
Também encontro beleza
na vida que construí,
nas estações que me habitam,
nos caminhos que percorri
e nas pessoas que o tempo me presenteou.
Mas, se me fosse concedido
o improvável milagre
de revisitar um único tempo,
eu voltaria...
Voltaria para os dias
em que o relógio parecia esquecer
de contar as horas.
Voltaria para a menina
que acreditava
que dezembro nunca chegaria,
que as férias seriam eternas
e que o mundo terminava
logo depois da última cerca da fazenda.
Talvez...
Talvez o tempo nunca tenha andado mais devagar.
Talvez fosse o meu coração,
ainda pequeno,
que caminhava na velocidade da eternidade.