QUE BARULHO FOI ESSE?

| | 2026/10 Antologia Era uma vez uma palavra | Paula Gibbert
Publicado em 01 de Novembro de 2026 ás 07h 22min

QUE BARULHO FOI ESSE?

 

                                                                                          

Acordei. De olhos arregalados, observei que tudo ainda era um breu. Sentado na cama, dava para ouvir o tic-tac do relógio da sala. Mas eu escutei mais algo, sim. Eu até acordei por causa disso!

Havia alguém se movimentando pela casa. Eu ouvia um barulho bem discreto de passos no andar de baixo. Durou uns dez minutos, nada mais que isso. Depois, silêncio.

Por alguns minutos, não ouvi mais nada fora do comum para aquela hora. Fui até a janela e espiei. Nada se mexia. Nenhum movimento na rua. Que noite perfeita para um assalto —pensei.

Mas, na minha casa não havia o que roubar. Ou havia?

Voltei para a cama e me cobri até as orelhas. Estava com medo – tenho de confessar. Rolei de um lado para o ouvir outro barulho: créc, créc, créc. Parecia o rangido que a escada de madeira que dava para o andar superior do sobradinho fazia ao ser pisada. E pareciam ser passos de mais de uma pessoa.

Mais barulhos. Confirmado: havia alguém agora já no corredor. Meu coração batia tão alto que poderia denunciar minha presença.

Entraram no quarto dos meus pais e no de hóspedes demorando um bom tempo em cada cômodo. O barulho dos passos se aproximava agora do meu quarto, o último do corredor.  Por debaixo da porta, vi clarões vindos das lanternas deles.

Ouvi o ruído da maçaneta do meu quarto girando. Suando de medo, dei graças a Deus, por ter trancado a porta com a chave. Entretanto, eles estavam decididos a entrar nesse cômodo também e as tentativas para abri-lo passaram a ser na base da pancada: chutes e ombradas foram desferidos contra a frágil barreira de madeira.  

O que estariam procurando? O que eu poderia fazer?

Nessa hora, tive um estalo e tirando coragem não sei de onde, saí de debaixo das cobertas fazendo o mínimo de barulho possível. Só deu tempo de apanhar uma coisa e me esconder bem na hora em que conseguiram arrebentar a porta e entraram no quarto.

Pelo barulho, percebi que alguém caiu pesadamente, mas logo se levantou e mais uma pessoa entrou também. Apavorado, vi que estavam armados. Se pudesse, com certeza teria ficado sem respirar, mas de que adiantava isso se meu queixo não parava de tremer? Coloquei meu polegar na boca para que o barulho dos dentes não fosse ouvido.

Focaram na cama vazia, tatearam-na e resmungaram “Ainda está quente. Ele deve estar por aqui.” Procuraram por todos os cantos, inclusive, na sacada e no sótão. Sem sucesso. Novamente no chão do quarto, os dois começaram a vasculhar o ambiente.

Eles deviam saber que a casa tinha sido construída em tempos de guerra, por isso, procuravam tão minuciosamente. Não encontrando no meu quarto alçapões, nem fundos falsos, tocaram no enorme espelho que dava para o local onde eu estava. Nesse momento, ouvi uma voz alta e firme:

— Parem nesse momento! Vocês estão presos em nome da lei.

Era a voz do Marlon, nosso vizinho policial. Meus pais haviam pedido para ele olhar por mim enquanto mamãe se recuperava de uma cirurgia no hospital. Ele percebera movimento de luzes na casa.

— O que fizeram com o Tom? — perguntou ele depois de ter algemado os dois.

—Nada, seu Marlon. Eu consegui me esconder a tempo —respondi saindo do compartimento secreto e ligando as luzes.

Não fiquei surpreso ao identificar os invasores. Os dois tinham sido meus colegas de equipe na participação na Olimpíada de astrofísica.

—O que vocês estão fazendo aqui? —perguntou o policial aos dois.

—Eles querem isto — respondi mostrando uma medalha para meu vizinho.

—O que é isso? —perguntou Marlon.

—Essa medalha pertence a ele — resmungou Caquinho apontando o parceiro.

João Grandão confirmou que só queriam a medalha de ouro que nossa equipe ganhou por ter ficado em primeiro lugar na olimpíada de astrofísica. Ele tinha sido o único a não ficar satisfeito com o resultado do sorteio que fizemos da medalha. A maioria dos componentes da equipe decidiu que tiraríamos a sorte para ver com quem ficaria o prêmio e o sortudo fui eu.

Marlon encaminhou os dois para a delegacia e eles tiveram a prisão preventiva decretada. Sorte a minha que, pelo menos, durante o inquérito, estaria longe das garras deles.

E muito mais sorte ainda por ter um vizinho tão amigo a quem dei a medalha em forma de agradecimento.

 

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.