Que sufoco! Coração saindo pela boca!
Outono | Narratica | Margarete Dalva Anschau NunesPublicado em 20 de Julho de 2026 ás 17h 33min
O dia quase normal da professora Sofia. Dizem que o cotidiano no interior tem um ritmo próprio, mais lento, quase pacato. Quem diz isso certamente nunca subiu uma serra de terra batida a bordo de uma Kombi, logo após uma tempestade.
Naquela quinta-feira, 8 de março, o dia da professora Sofia começou como qualquer outro. O destino era a escola; o meio de transporte, a valente Kombi do Seu Alberto. Ele, um homem de poucas palavras e muitos quilômetros de estrada, já havia cumprido a primeira missão do dia: deixar as crianças na escola. Quando Sofia embarcou, o cumprimento foi breve, logo seguido por aquela conversa fiada que serve para preencher o tempo enquanto o motor ganha força. Falavam de coisas banais, o clima, a colheita, a vida.
Mas a estrada tem suas próprias regras. A chuva da noite anterior havia transformado o barro em uma pista de patinação perigosa. Em um determinado trecho, onde a inclinação começava a desafiar a gravidade, Seu Alberto puxou o freio de mão. Parou do nada.
Sofia franziu a testa. Olhou para o motorista, depois para o vidro embaçado, tentando entender o motivo da parada técnica. Por respeito, ou talvez por um pressentimento de que o silêncio era a melhor estratégia, não disse uma palavra. Apenas observou.
Seu Alberto desceu com a calma de quem vai buscar o pão na padaria. Caminhou até a parte de trás da Kombi, revirou o que parecia ser um estoque de utilidades imprevistas e retornou carregando o que Sofia jurava ser a maior pedra da região. Sem pressa, ele abriu a tampa do motor e acomodou a rocha ali mesmo, como se fizesse um ajuste milimétrico de alta engenharia. Fechou a tampa, bateu a poeira das mãos e voltou ao volante.
"Fazer peso na tração", deve ter pensado ele, embora não tenha dito nada.
O que se seguiu foi um teste para os nervos da professora. Quando a Kombi arrancou, a subida se revelou um verdadeiro monumento ao absurdo. O veículo não subia em linha reta; subia de lado, deslizando de forma coreografada entre o abismo e o barranco. A traseira jogava para a esquerda, a frente apontava para a direita, e o motor roncava um misto de agonia e protesto.
Por dentro, Sofia era puro pânico. O coração batia no ritmo das rodas que giravam em falso no barro. Ela tentava manter a compostura, afinal, era a professora, mas o medo transparecia em cada músculo tenso de seu rosto. "Que sufoco, que horror", pensava, enquanto segurava firmemente onde dava. "Será que vamos chegar?"
Seu Alberto, por outro lado, parecia estar em seu habitat natural. Com as mãos firmes no volante, corrigindo cada deslize com a precisão de um piloto de rali, ele não demonstrava um pingo de hesitação. A experiência não se compra; demonstra-se no topo de uma serra escorregadia.
Contra todas as probabilidades físicas, a Kombi venceu o barro. O topo da serra finalmente surgiu no horizonte, e com ele, o teto plano da escola. Seu Alberto estacionou, puxou o freio de mão novamente e deu por encerrada a jornada. Tirou de letra.
Sofia desceu do veículo, respirou o ar puro da manhã e sentiu o chão firme sob os pés. Chegaram sãos e salvos. Olhou para a Kombi, depois para o motorista. No final das contas, uma grande história de superação e coragem sempre precisa de duas coisas: uma boa professora para testemunhar e um Seu Alberto com uma pedra no motor.
Livro: Amor a primeira vista