Quem é ela?
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 13 de Março de 2026 ás 11h 49min
Quem é ela?
A pergunta flutua
como névoa sobre o campo ao amanhecer.
Eu a vejo
e o céu se inclina.
Não é um tremor de terra,
nem o sussurro do vento nas folhas altas,
é a presença dela,
uma gravidade suave, inesperada.
Quando seus passos tocam o chão
que eu conhecia como poeira e esquecimento,
algo desperta.
As estrelas,
aquelas luzes antigas, distantes faróis do tempo,
elas se curvam.
Uma reverência silenciosa,
um reconhecimento mudo
de algo maior que a própria noite.
Elas se dobram como juncos
sob uma corrente forte,
testemunhas do seu caminhar leve,
quase sem peso,
mas com um impacto profundo.
E os olhos dela,
ah, esses rios contidos, lagos profundos de um azul que não conheço.
Fios finos de oceano,
gotas de sal e mistério,
escapam sem alarde.
Não é choro de dor,
não é a tristeza que conhecemos.
É a própria essência da água pura,
do vasto mar que se derrama.
Essas lágrimas líquidas,
cada fio delicado,
cai.
Cai sobre esta terra,
a minha terra,
que eu havia esquecido como se sente a vida.
Seca, rachada, esperando um milagre.
E ela rega.
Sem pedir licença, sem anunciar a bênção,
a umidade toca o solo árido
onde eu estava adormecido.
Onde eu dormia,
um sono pesado de anos sem cor,
o leito de areia fria.
As gotas dela são sementes,
embora eu não veja brotos imediatos,
sinto a promessa úmida.
Quem é essa mulher
que carrega o céu no seu gesto
e o mar nos seus olhos?
Ela passa,
e o mundo se reorganiza em torno do seu rastro.
Eu, que era apenas sombra sob o sol forte,
sinto a terra respirar fundo
após ser beijada pela água que ela derrama.
Ela é a chuva que não esperávamos,
a constelação que se dobra para saudar.
E eu sou apenas o chão grato,
bebendo o que ela oferece,
esperando o verde que virá depois dela.