Não sou rastro na areia que o mar apaga,
nem folha seca que o vento carrega.
A vida não passa por mim como uma vaga,
sou eu quem mergulha, quem planta e navega.
Assisto ao mundo com olhos atentos,
na grande plateia de cada segundo.
Mas não me limito a seguir os momentos:
eu entro na arena, eu transformo o profundo.
Não sou o reflexo que a noite desfaz,
nem eco distante que o vento calou.
Eu trago no peito a força que traz
a marca indelével de quem já mudou.
Participo da dor, do riso, do traço,
escrevo meus dias com tinta de ação.
O tempo não corre vazio no espaço,
pulsa no ritmo do meu coração.
Se o dia convida, eu aceito o chamado,
se a estrada se fecha, eu faço o caminho.
Não fico à espera de um dom enviado,
nem sigo a corrente, colhendo o espinho.
Se o medo sussurra que o passo é incerto,
respondo com a pressa de quem quer vencer.
O rumo correto se molda no aberto,
na audácia diária de ver amanhecer.
Não mudo o destino que o céu desenhou,
mas mudo a moldura de cada lugar.
Onde a tempestade o solo castigou,
eu faço a semente de novo brotar.
Assim vou moldando a argila do agora,
sem medo do tempo, sem vã hesitação.
Deixando o cansaço do lado de fora,
ponho a minha vida na palma da mão.
Estou vivo por inteiro, presente e desperto,
metade testemunha, metade construtor.
No erro ou no acerto, no longe ou no perto,
da minha jornada eu sou o autor.