Rascunhos antigos.

 

O meu Eu é um rascunho antigo, 

guardado numa gaveta milenar, 

onde a poeira do tempo 

se instalou preguiçosa, 

como musgo macio em pedra fria. 

 

As bordas, já gastas, 

dobradas por incontáveis releituras, 

guardam a fragilidade 

do que foi intenção, 

e ainda não se tornou verdade plena. 

 

As palavras, escritas a nanquim desbotado, 

sussurram hesitações de juventude, 

promessas quebradas ao vento, 

e risos soltos que o presente não alcança. 

 

Há borrões aqui e ali, 

marcas de lágrimas secas 

que corrigiram um caminho, 

ou talvez apenas a pressa de um dia exausto, 

tentando acertar a curva da frase. 

 

A tinta falhou em alguns pontos, 

deixando espaços vazios, 

silêncios eloquentes 

onde a coragem recuou, 

ou a linguagem simplesmente falhou. 

 

Este rascunho não tem capa, 

nem lombada firme; 

é papel amarelado, 

leve como folha de outono, 

pronto a voar com um sopro descuidado. 

 

Eu o abro às vezes, 

à luz tênue da madrugada, 

quando o mundo lá fora dorme pesado, 

e tento decifrar a caligrafia apressada 

de quem eu era, 

e de quem eu sonhava ser. 

 

É um mapa incompleto, 

com rotas nunca seguidas, 

e alguns tesouros enterrados 

que a memória teima em proteger. 

 

A gaveta range ao abrir, 

um som cavernoso, 

como se a madeira antiga 

lamentasse a demora no reencontro. 

 

E eu toco as linhas com a ponta dos dedos, 

sentindo a textura áspera da memória, 

sabendo que este é o começo, 

o esboço persistente, 

que insiste em ser a fundação 

do texto que ainda está sendo escrito, 

dia após dia, 

com canetas mais firmes, 

mas com a mesma tinta, afinal, 

a tinta da vida.

 

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