Rascunho antigo
| Poesia Lírica | 2026/3 Antologia Rascunho do Eu: enquanto me escrevo | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 05 de Março de 2026 ás 10h 02min
Rascunhos antigos.
O meu Eu é um rascunho antigo,
guardado numa gaveta milenar,
onde a poeira do tempo
se instalou preguiçosa,
como musgo macio em pedra fria.
As bordas, já gastas,
dobradas por incontáveis releituras,
guardam a fragilidade
do que foi intenção,
e ainda não se tornou verdade plena.
As palavras, escritas a nanquim desbotado,
sussurram hesitações de juventude,
promessas quebradas ao vento,
e risos soltos que o presente não alcança.
Há borrões aqui e ali,
marcas de lágrimas secas
que corrigiram um caminho,
ou talvez apenas a pressa de um dia exausto,
tentando acertar a curva da frase.
A tinta falhou em alguns pontos,
deixando espaços vazios,
silêncios eloquentes
onde a coragem recuou,
ou a linguagem simplesmente falhou.
Este rascunho não tem capa,
nem lombada firme;
é papel amarelado,
leve como folha de outono,
pronto a voar com um sopro descuidado.
Eu o abro às vezes,
à luz tênue da madrugada,
quando o mundo lá fora dorme pesado,
e tento decifrar a caligrafia apressada
de quem eu era,
e de quem eu sonhava ser.
É um mapa incompleto,
com rotas nunca seguidas,
e alguns tesouros enterrados
que a memória teima em proteger.
A gaveta range ao abrir,
um som cavernoso,
como se a madeira antiga
lamentasse a demora no reencontro.
E eu toco as linhas com a ponta dos dedos,
sentindo a textura áspera da memória,
sabendo que este é o começo,
o esboço persistente,
que insiste em ser a fundação
do texto que ainda está sendo escrito,
dia após dia,
com canetas mais firmes,
mas com a mesma tinta, afinal,
a tinta da vida.