RASCUNHO

| | 2026/3 Antologia Rascunho do Eu: enquanto me escrevo | Isolti Cossetin
Publicado em 07 de Março de 2026 ás 20h 53min

Rascunho  

Ainda sou rascunho.
Traço incerto
na margem branca dos dias.

Em mim habitam
frases suspensas,
palavras que hesitam
à beira do silêncio.

Escrevo-me devagar,
como quem tateia o escuro
à procura do próprio nome.

Às vezes borro linhas,
rasgo certezas antigas,
recomeço parágrafos
com a tinta frágil da esperança.

Porque viver
é esse ofício invisível:
revisar o coração
no caderno do tempo.

E enquanto me escrevo,
descubro — quase em segredo —
que também sou escrita
pelas mãos profundas da vida.

Talvez um dia
meu texto encontre forma,
e a alma assine embaixo.

Mas, por agora,
aceito o inacabado:

sou verso em travessia,
sopro entre vírgulas,
palavra que aprende
a nascer de si mesma.

E há uma estranha beleza
neste estado de rascunho
como se Deus ainda
me escrevesse devagar.

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Neste poema a analogia é perfeita entre o ato de viver e o ato de escrever. O "eu lírico" se vê como um rascunho, uma obra, ainda inacabada, algo em processo de formação constante, com uma identidade que não é estática, mas como se estivesse numa travessia contínua!

Lorde Égamo | 08/03/2026 ás 14:03
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