REFLEXÃO NECESSÁRIA

| Crônica | Isolti Cossetin
Publicado em 03 de Novembro de 2026 ás 18h 50min

Reflexão NECESSÁRIA!

Quando a vida deveria ter começado antes

Há mulheres que dizem que começaram a viver depois que a violência acabou.

Eu as escuto e, por dentro, uma pergunta me atravessa:

Por quê?

Por que uma mulher precisou aprender a respirar depois do medo?

Por que precisou reaprender a sorrir depois de tantas lágrimas?

Por que precisou descobrir a própria voz somente depois de passar anos sendo silenciada?

Para algumas mulheres, a vida começa quando a violência termina.

Elas abrem a janela e descobrem que o mundo ainda existe. Caminham pela casa sem medo. Escolhem uma roupa sem ouvir críticas. Fazem planos sem precisar pedir permissão. Dormem uma noite inteira sem esperar pelo próximo grito.

E, pouco a pouco, descobrem algo que a violência tentou lhes roubar:

elas ainda estão ali.

Talvez um pouco cansadas. Talvez cheias de marcas invisíveis. Talvez com sonhos guardados em gavetas que permaneceram fechadas por tempo demais.

Mas estão.

E então começam os recomeços.

Um café tomado em silêncio.

Uma porta que se fecha.

Um “não” pronunciado sem culpa.

Um passeio feito sem medo.

Uma gargalhada que volta a ocupar a casa.

Pequenas coisas.

Mas quem já teve a liberdade roubada sabe: algumas pequenas coisas têm o tamanho do infinito.

Só que há uma verdade que não podemos esquecer: isso não deveria ser assim.

A vida de uma mulher não deveria começar depois da violência.

Ela deveria começar todos os dias.

Na infância, quando aprende a sonhar.

Na adolescência, quando descobre quem é.

Na juventude, quando escolhe seus caminhos.

Na maturidade, quando muda de direção.

Em qualquer idade, sempre que quiser recomeçar.

Nenhuma mulher deveria precisar sobreviver para ter direito a viver.

Por isso, agosto não pode ser apenas um mês de discursos, campanhas e laços simbólicos.

Que seja um mês de consciência.

De escuta.

De coragem para não naturalizar aquilo que nunca foi normal.

Porque violência não é amor que perdeu o controle.

Não é ciúme.

Não é cuidado exagerado.

Não é destino.

Violência é violência.

E uma sociedade verdadeiramente comprometida com suas mulheres não deveria esperar que elas escapassem da violência para, só então, lhes devolver o direito de viver.

A vida delas já estava acontecendo.

E deveria ter sido bonita desde o começo.

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