Sinopse:
Uma cena comum em uma vendinha de estrada transforma o riso em silêncio e revela, sem explicações, como julgamentos apressados podem enganar.
Remendos e Moedas
Há lugares que parecem existir fora do relógio.
A vendinha de beira de estrada era um deles.
Era um domingo ensolarado, desses em que o mundo anda devagar, como se apenas observasse o próprio movimento.
Dentro, alguns mancebos jogavam sinuca. O estalo das bolas se misturava às risadas altas e aos comentários soltos sobre a vida.
A porta rangeu.
Entrou um senhor.
Vestia uma calça marrom já confundida com a poeira da estrada e uma camisa azul — da mesma cor do céu daquele dia — marcada por remendos antigos. Os sapatos, gastos, denunciavam muitos caminhos percorridos.
Um dos rapazes, bem vestido, o mediu de cima a baixo e comentou, sem disfarçar:
— O que será que o velho quer? Nem dinheiro pra comprar roupa tem.
O senhor não respondeu. Aproximou-se do balcão com calma. Observou os produtos por alguns segundos, como quem calcula o necessário.
Pediu algumas batatas, um pouco de farinha, um pacote pequeno de café, meia dúzia de balas coloridas e dois doces simples, embrulhados em papel fino.
O atendente separou tudo em silêncio.
O homem acompanhou cada item pousado sobre o balcão. Em seguida, levou a mão ao bolso e retirou um maço de dinheiro.
As notas apareceram espessas entre os dedos.
As risadas morreram ali mesmo.
O rapaz que havia zombado enfiou a mão no próprio bolso, quase automático. Tacteou o tecido vazio, como se esperasse encontrar alguma moeda esquecida. Não havia nada.
Seus olhos correram até a mesa de sinuca, onde o amigo segurava as moedas da partida. Ele apertou o taco com mais força do que antes e desviou o olhar.
O senhor passou as notas com paciência, afastando as maiores, até escolher algumas menores. Pagou sem pressa e guardou o troco.
O silêncio já ocupava a vendinha.
Antes de sair, voltou o olhar para os jovens. Havia um leve sorriso, sem ironia.
— A vida ensina a gente a economizar muitas coisas — disse. — Dinheiro… e julgamento.
Empurrou a porta e saiu.
Por alguns segundos ninguém mexeu.
O rapaz bem vestido pigarreou, ajeitou o taco e disse baixo:
— Bora terminar a partida.
Mas o jogo já não tinha o mesmo riso.