Riqueza de Quintal
| Poesia Lírica | 2026/06 Antologia Versos de raiz e chão | Isolti CossetinPublicado em 01 de Junho de 2026 ás 18h 08min
Riqueza de Quintal
Outro dia vi uma criança sentada diante de uma montanha de brinquedos.
Havia carrinhos, jogos eletrônicos, bonecos articulados, telas coloridas e sons que se misturavam numa espécie de espetáculo permanente.
Ainda assim, ela parecia entediada.
Voltei para casa pensando naquela cena.
Não por crítica. Os tempos são outros. As infâncias também.
Mas, enquanto caminhava, fui visitada por uma lembrança antiga: a menina que eu fui.
Não tínhamos muitos brinquedos.
Na verdade, às vezes não tínhamos brinquedo algum.
Mas havia um quintal. E naquele quintal cabia o mundo.
Uma árvore virava castelo. Um galho transformava-se em cavalo.
Latas vazias serviam panelinhas. Pedras eram tesouros.
E a imaginação fazia o resto.
Hoje percebo que nossa riqueza não estava nas coisas que possuíamos.
Estava na liberdade.
Liberdade para correr até o anoitecer.
Para subir em árvores e comer os frutos.
Para inventar universos inteiros com quase nada.
Liberdade para tomar banho de chuva.
Não sabíamos que éramos pobres.
A pobreza é uma palavra que os adultos inventam quando começam a comparar vidas.
As crianças apenas vivem.
E nós vivíamos.
Havia roupas simples. Havia dificuldades. Havia sonhos adiados.
Mas também havia algo que hoje me parece cada vez mais raro: presença.
As pessoas estavam ali. Sentadas à mesa. Conversando na varanda. Contando histórias.
Compartilhando silêncios.
Talvez por isso eu tenha aprendido tão cedo que riqueza e abundância nem sempre são a mesma coisa.
Porque abundância pode ser excesso. Riqueza, não.
Riqueza é aquilo que permanece quando quase tudo falta.
E, tantos anos depois, quando fecho os olhos, ainda consigo ver a menina correndo descalça pelo quintal.
Não me lembro dos brinquedos que não tive.
Mas lembro perfeitamente dos abraços que recebi.
E isso diz muito sobre o que realmente importa.