Se ele voltar amanhã

Pensamentos | Poesia Existencial | Rosilene Rodrigues Neves de Meneses
Publicado em 01 de Abril de 2026 ás 06h 39min

Se o céu se abrir em luz súbita ao alvorecer,

o horizonte se dobrar como um pergaminho antigo,

eu estarei pronto para o encontro marcado no silêncio?

Ou estarei ainda ocupado com os ruídos do mundo,

correndo atrás de sombras que não possuem peso,

gastando os dias em preocupações que se desfazem com o vento?

 

Eu olho para as minhas mãos hoje

e pergunto o que elas carregam além de si mesmas:

são mãos que cultivaram o afeto e a paciência,

ou mãos que apenas acumularam o pó da pressa

e o peso de julgamentos que não me cabiam?

 

Se o clarim ressoar antes que eu possa terminar a frase,

o meu eu estará despido de todas as máscaras —

aquelas que uso para parecer maior ou mais forte

diante dos olhos de quem atravessou a eternidade por mim.

 

Como estarei quando o olhar dele encontrar o meu?

Serei uma alma em paz com as feridas que cicatrizei,

ou serei apenas um reflexo de arrependimentos não ditos,

de portas que deixei fechadas por medo do desconhecido,

de palavras de amor que ficaram guardadas na garganta

como pássaros sem espaço para o voo?

 

O meu eu será como um espelho limpo refletindo o sol,

ou estarei coberto pela poeira das distrações cotidianas,

buscando esconder o que não tive coragem de transformar?

 

Eu desejo que esse eu que se apresenta

seja feito de verdade simples e coragem mansa,

que não tenha medo de ser visto em sua total fragilidade.

Porque sei que o amor dele não procura perfeição,

mas busca a sinceridade de um coração que tentou —

mesmo quando os pés vacilam na trilha íngreme da vida.

 

Se ele voltar amanhã,

espero que me encontre com o coração aberto como uma casa,

onde todas as janelas foram abertas para deixar a luz entrar,

sem esconderijos e sem reservas:

apenas uma alma que reconhece o seu mestre

e se curva não pelo medo do juízo,

mas pela alegria imensa de finalmente estar em casa,

onde o tempo para e o amor se torna o único idioma que importa.

 

Eu estarei pronto na medida do meu esforço em ser melhor.

Espero que o meu eu de amanhã

seja mais humano do que o de hoje,

mais compassivo com as falhas alheias,

mais atento ao chamado do essencial.

E que, ao ouvir o som dos passos que mudaram a história,

eu não tente me esconder atrás de nenhuma folha de figueira,

mas corra ao encontro dele

com a liberdade de quem finalmente compreendeu

que o destino de toda jornada

é apenas repousar no abraço daquele que nos esperou o tempo todo.

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