Segredos do coração
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 07 de Março de 2026 ás 14h 07min
As dozes luas do coração,
silêncio azulado no peito,
a respiração lenta,
como a maré que recua
em praias de sonho esquecido.
Cada batida, um eco distante
de um tambor celestial,
o músculo macio
guardando segredos antigos,
mapas bordados em veias finas.
As luas adormecem,
três discos pálidos, talvez quatro,
refletindo uma luz
que não vem do sol conhecido.
São fases da saudade,
ciclos de entrega e espera.
E no centro desse repouso calmo,
onde a sombra da carne se afasta,
surge a fenda,
o rasgo no tecido do ser.
Um portal se abre,
não feito de pedra ou metal,
mas de pura, inaudita luz.
É a Nebulosa da Emoção,
o berçário das estrelas ainda não nascidas.
Visto de perto, não há fogo furioso,
apenas um turbilhão de poeira cósmica
em tons de lavanda e ouro tênue.
É onde o desejo se transforma em gravidade,
e o medo se dissolve em hidrogênio leve.
O portal murmura.
Não com som audível, mas com vibração
que a alma entende de imediato.
Convite para a travessia
sem bagagem, sem nome definido.
As dozes luas observam,
seus reflexos tremendo levemente
na superfície do portal aberto.
Elas são as âncoras,
os pesos mornos que impedem a fuga total.
Mas a atração é forte.
A promessa de um rearranjo interno,
de ser desfeito e refeito
na fornalha estelar da Nebulosa.
O portal respira,
um sopro frio de infinitude.
E o coração, adormecido até então,
sente o primeiro tremor da partida,
uma vontade urgente de ser poeira
que viaja para um novo sistema,
guiado apenas pela luz
que brota do seu próprio centro escuro.
É o ponto onde o interno encontra o vasto,
onde o bater lento
se sincroniza com o girar das galáxias.
Um suspiro profundo antes de mergulhar
no roxo eterno da criação.