Sempre chove
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 06 de Março de 2026 ás 11h 59min
A névoa fina,
não aquela da manhã
que beija a grama,
mas outra, mais pesada,
que veste o ombro de quem
já carrega o peso do mundo.
Há uma coisa sem explicação,
um decreto silencioso do céu
que insiste em molhar
a pele que deveria estar quente
sob o ouro do meio-dia.
As pessoas,
sim, aquelas com o riso guardado
na gaveta do peito,
aquelas que plantam flores
em terrenos pedregosos,
que oferecem o pão
mesmo com a despensa vazia.
Elas merecem o sol.
Merecem a luz dura
que seca a umidade da alma,
o calor que afasta
a sombra teimosa do cansaço.
Merecem a clareza
que não precisa de guarda-chuva.
Mas chove.
Sempre chove sobre elas.
Uma garoa constante,
invisível para muitos,
mas que encharca os sapatos
da jornada diária.
Parece que o universo
esqueceu de ajustar a torneira,
deixando o aguaceiro
focado nos telhados mais frágeis.
E elas continuam caminhando,
com os lábios secos,
esperando o dia
em que a nuvem cinzenta
se canse de chorar
sobre quem já sabe
o valor exato de um dia
sem pingos frios.
Esperam a trégua não pedida,
a benção inesperada do azul
que, teimosamente,
ainda não chegou
para quem guardou tanto
do calor para os outros.
Ainda chove.
E a explicação,
essa,
permanece no ar denso,
inexistente.
Comentários
que lindo
ADAILTON LIMA | 06/03/2026 ás 13:07