Silêncio
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 31 de Maio de 2026 ás 08h 39min
Silêncio
Silêncio — o arcanjo arqueiro fita os olhos em ti,
suas asas de luz tremem no limiar do infinito,
e a flecha permanece suspensa entre o céu e o grito
que, por mais que sentisses, nunca ousaste proferir.
Ele não pisca. Não respira.
É feito de pedra de estrela, é fogo que aquece, mas não consome,
e tu, pequeno mortal, de carne, tempo e nome,
sentes sobre ti o peso exato da sua mira.
Que segredo é esse que carregas no fundo do peito,
capaz de despertar o olhar atento do guardião celeste?
Que culpa, que graça, ou que amor agreste
te torna tão digno de tamanho respeito?
O arco retesado não promete ferida nem dor —
promete apenas a verdade, nua, clara e cruel.
A seta não busca a tua pele, nem pergaminho ou papel,
mas o centro exato e vivo do teu próprio temor.
E é no silêncio absoluto que tudo, enfim, se revela:
descobres que não és apenas alvo — és também espelho.
O arcanjo não atira lição, nem conselho,
apenas reflete a guerra que há em ti, bela e selvagem, que se descortina.
Silêncio. Ele espera, imóvel.
A escolha, desde o princípio, sempre foi tua.