Sob a pele das palavras
| Poesia Amorosa | Dolores FlorPublicado em 21 de Maio de 2026 ás 08h 34min
Nem tudo o que digo me pertence,
há frases que vestem disfarce;
por baixo delas, algo vence
a prudência que tento guardar-se.
Escrevo simples, quase fria,
como quem passa sem tocar;
mas cada sílaba escondia
um corpo inteiro a respirar.
Teu nome não surge declarado,
permanece em curva e sinal;
feito perfume resguardado
na dobra íntima do banal.
Há uma febre muito serena
sob meu modo de responder;
uma ternura que se condena
para não crescer e acontecer.
Se leres devagar minha ausência,
talvez percebas, sem rumor,
que há desejo em penitência
nas margens claras do pudor.
Porque a palavra, quando se cala,
nem sempre deixa de querer;
às vezes, apenas fecha a sala
para o amor não se perder.