Sopro de vida

Contos | 2025 - Antologia Ingrid Mohr e Convidados - A arte de viver | Manoel R. Leite
Publicado em 11 de Janeiro de 2026 ás 17h 26min

O sol entrou pela janela em um ângulo comum, desses que não fazem promessa de grandeza, apenas iluminam o necessário. O quarto ainda guardava o silêncio da noite, interrompido pelo ruído distante da rua acordando. Um ônibus passou, alguém varreu a calçada, um rádio foi ligado em volume baixo. A vida, mais uma vez, seguia, como se parasse enquanto dorme.

Ela abriu os olhos devagar, respirou fundo. O ar entrou e saiu sem esforço. Era um gesto simples, automático, mas ali havia algo inteiro: o sopro. Viver, sem dramatizar, começa sempre assim, inspirar, expirar, continuar.

Levantou-se, colocou os pés no chão frio e caminhou até a cozinha. A cafeteira esperava. Enquanto a água aquecia, olhou pela janela. O dia não tinha nada de extraordinário, isso era o suficiente. Havia árvores com folhas levemente empoeiradas, um céu claro sem exageros e pessoas passando apressadas, cada uma carregando seu próprio enredo invisível.

— Bom dia! - disse ao vizinho que regava as plantas.

— Bom dia! - ele respondeu, sem interromper o gesto.

Não trocaram mais palavras. A vida se comunica assim: em presenças breves, em reconhecimentos silenciosos. Tomou o café com calma. O sabor era conhecido, constante, confiável. Não havia novidades. Nem tudo precisa surpreender para ter valor. Algumas coisas sustentam justamente porque se repetem. Saiu de casa pouco depois. O caminho até o trabalho era feito a pé, escolha deliberada. Observava vitrines, fachadas antigas misturadas com construções recentes, cartazes colados tortos em postes. Cada detalhe era um fragmento de vida em movimento.

No ponto de ônibus, uma mulher segurava a mão de uma criança. A criança falava sem parar, apontando para tudo.

— Olha, mãe, um cachorro grande!

— É grande mesmo. - respondeu a mulher, sorrindo distraída.

Observou a cena simples. Sem revelação, apenas o instante acontecendo. E, ainda assim, havia densidade. Cada momento carregava mais do que parecia.

No prédio onde trabalhava, cumprimentou o porteiro, entrou no elevador. Espelhos, botões, números subindo. Um homem ao lado ajeitava a gravata com cuidado exagerado.

— Segunda-feira. - Ele comentou, como se explicasse tudo.

— Ela sempre chega. - Respondeu ela.

O homem riu breve. O elevador parou. Cada um seguiu para seu andar.

O trabalho ocupava boa parte do dia. Como a maioria das pessoas. Reuniões, papéis, telas, conversas objetivas. Nada ali era épico, mas tudo era necessário. Ela executava suas tarefas com atenção, sem pressa desnecessária, sem ansiedade acumulada. A vida não é feita de grandes eventos, mas na forma como se atravessa o cotidiano.

Em determinado momento, uma colega se aproximou da mesa. A colega assentiu, sem pedir explicações. Algumas frases não pedem aprofundamento; elas funcionam como pequenos acordes, suficientes para manter a melodia do dia.

No almoço, escolheu sentar perto da janela do restaurante. Observou pessoas atravessando a rua, algumas falando ao telefone, outras mastigando pensamentos invisíveis. O prato chegou quente, cheiroso, honesto. Enquanto comia, percebeu como o corpo respondia ao alimento, como tudo ali — mastigar, engolir, respirar — fazia parte de um mesmo fluxo. Pensou, sem nostalgia, no tempo. Não no tempo que passou, mas no que acontece. O tempo não era um inimigo nem um juiz. Era um companheiro silencioso, caminhando ao lado. Cada minuto era um espaço aberto, não uma cobrança.

À tarde, o trabalho seguiu. Houve um problema técnico, resolvido sem alarde. Houve uma conversa séria, conduzida com respeito. Houve risos discretos no corredor. Nada saiu do controle, nada exigiu heroísmo. E ainda assim, tudo importava. Ao fim do expediente, ela saiu do prédio e respirou fundo novamente. O ar da tarde era diferente do da manhã, mais denso, mais quente, mais vivido. Caminhou sem pressa. O céu agora carregava tons que anunciavam o entardecer. As sombras se alongavam. As pessoas pareciam um pouco mais cansadas, mas também mais reais.

Parou em uma praça pequena, sentou-se em um banco. Um homem tocava violão a poucos metros, sem plateia formal. Tocava porque precisava tocar. Uma melodia simples, repetitiva, quase distraída. Ainda assim, havia ali uma verdade que não precisava de aplauso.

Uma senhora passou com um cachorro.

— Ele puxa muito! - disse ela, rindo.

— Puxa porque quer ir. - Respondeu.

— Pois é. A gente também.

Sorriu. Era isso. Querer ir. Seguir. Respirar.

Quando o sol começou a desaparecer por trás das árvores, levantou-se. Voltou para casa com a sensação clara de que o dia não havia sido pequeno. Tinha sido inteiro. Cada gesto, cada palavra, cada silêncio havia ocupado seu lugar. Em casa, abriu as janelas, deixou o ar circular. Preparou algo simples para o jantar. Enquanto cortava os alimentos, percebeu o som da faca, o cheiro que se espalhava, o corpo se movendo com precisão aprendida. Tudo era concreto, presente.

Sentou-se à mesa, comeu devagar. Depois, lavou a louça sem distrações. Não ligou a televisão. Preferiu o silêncio preenchido pelos sons da casa: água, passos, um carro passando ao longe. Antes de dormir, sentou-se na cama e respirou mais uma vez, consciente. Não como exercício, não como técnica. Apenas como reconhecimento. Estava ali. Viva. Inteira naquele instante.

Pensou, sem peso, que a arte de viver talvez fosse isso: não acumular grandes revelações, mas perceber a profundidade que existe no simples fato de estar. Não transformar cada dia em espetáculo, mas permitir que cada dia seja vivido.

Deitou-se. Apagou a luz. O quarto escureceu lentamente. O corpo encontrou repouso. O mundo continuava lá fora, seguindo seu ritmo próprio. E, enquanto o sono chegava, ela não pediu nada ao amanhã. Ele viria, trazendo outro sopro, outra sequência de instantes. E isso, por si só, já era suficiente.

Porque a vida não grita.

Ela respira.

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