Te encontrarei do outro lado
Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 12 de Fevereiro de 2026 ás 10h 42min
Te encontrarei do outro lado
Não há relógios lá
onde o tempo se dissolve
como açúcar na água morna
de um rio que não corre
mas simplesmente é.
Eu te espero na margem
onde a luz tem outra cor,
não o amarelo cansado do dia
mas um tom profundo,
quase azul,
que acalma a retina da alma.
Lá, o ar não se move com pressa.
É denso, perfumado
com a memória de flores
que nunca existiram aqui.
Te encontrarei onde o silêncio é poesia.
Cada pausa entre os pensamentos
é um verso bem medido,
uma estrofe sem rima forçada,
pura intenção.
O ruído da cidade,
o trânsito incessante da dúvida,
tudo isso se cala.
Não é ausência de som,
mas a soma de todos os sons
reduzida ao essencial.
Onde a música é silêncio,
entendo a tua voz.
Não preciso das palavras
que tropeçavam na língua
neste lado denso.
Aqui, o significado flui sem a barreira da frase.
Te reconheço no espaço
entre um suspiro e outro,
na vibração sutil da existência.
É um campo aberto, sem cercas,
onde as sombras são gentis
e não escondem nada.
As perguntas que nos apertavam o peito
se desfazem em névoa leve,
sem necessidade de resposta.
Eu levo comigo apenas a lembrança do calor
da tua mão.
Não é uma âncora, mas um mapa.
E quando meus pés tocarem aquela terra
onde a grama é feita de sussurros antigos,
eu saberei que chegamos.
Não haverá mais despedidas.
Apenas o reencontro
na cadência perfeita
deste silêncio musical.
Vamos sentar juntos
sob a sombra daquela grande árvore
que só cresce no outro lado,
e apenas existir.
Isso será suficiente.
Isso será tudo.