Tratado
Um dia bateu na porta
Gente conhecida
Suada, com gravata torta
Falou de gente morta
Falou da minha vida
Foram palavras versadas
Que incomodou uma pessoa
Narrativa rebuscada
Mesmo assim identificada
Como discurso que destoa
Então fugi sem rumo
Levei a caneta e o papel
Não perdi meu prumo
Fiz da vida um resumo
Meu mundo virou babel
Um sicário me perseguia
Queria calar-me para sempre
De casa em casa eu fugia
Uma mente em agonia
Mas sempre olhava pra frente
A poesia que incomodava
Escrita com tanta atitude
Tomou dimensão inesperada
Um tiro pela culatra
Passaporte da infinitude
E o meu algoz me procurava
Por becos, vielas e trincheiras
Não desistia da entoada
Obedecia a quem mandava
Fazer da morte minha parceira
Mesmo assim furtivamente
Poetizava meus alaridos
Assim exercitava a mente
Para quem sabe finalmente
Ser mortalmente ferido
Cansei de retardar o fim
Me entreguei ao sufrágio
Talvez não fosse tão ruim
Ter uma lápide no jardim
Escrito algum adágio
Chegou no meu esconderijo
O mensageiro da má sorte
Um rosto sem regojizo
Sem o olhar do aflijo...
Mas tinha cheiro de morte
Chegou mulambo alquebrado
Ferido pela peleja da procura
Com sede, fome e estenuado
Mas sabendo qual seu lado
Da história, da amargura
Podia me aproveitar da fraqueza
Daquele emissário fragilizado
Não era de minha natureza
Mesmo com minha incerteza
Dar cabo daquele pobre coitado
Se recuperou dos dissabores
Ficou forte e determinado
Na missão dos seus senhores
De acabar com minhas dores
Minha história, meu legado
Confirmado com meu destino
O pistoleiro me indagou
Por que não fez o desatino
De se livrar desse assassino
Que fraco aqui chegou
Respondi com olho marejado
Segurando caneta e papel:
A mosca tem o seu tratado
Só beija o que está estragado
Mas a abelha, só proporciona mel
Adailton Lima