Último amor
Poemas | 2026/1 Antologia Quando a palavra sente | Manoel R. LeitePublicado em 31 de Janeiro de 2026 ás 06h 01min
Não chegas com o estrondo
dos começos ansiosos
nem com a urgência
de quem teme a solidão
Chegas manso
como quem já sabe o lugar da xícara na mesa
o lado certo da cama
o silêncio que não pesa
Não me pedes promessas
nem juras em voz alta
teu pacto é cotidiano
teu gesto é presença
Passei a vida
aprendendo a confundir amor com vertigem
com excesso
com fome
Acreditei que amar
era sempre buscar
perseguir
recomeçar
Hoje sei
há amores que não correm
ficam
O último amor
não chega para provar nada
chega para permanecer
Em ti
o coração desacelera
não por cansaço
mas por confiança
Já não preciso
decifrar sinais
nem interpretar ausências
teu afeto não se esconde
Há dias em que somos rima
outros em que somos verso solto
e há aqueles
em que apenas respiramos juntos
sem música
sem métrica
E ainda assim
há harmonia
O último amor
não promete eternidade
ele a constrói
na repetição simples dos dias
No café morno
na palavra que não fere
no toque que não exige
Não és chama que consome
és brasa que aquece
Aprendi contigo
que amar não é perder-se
é finalmente caber
Já não procuro
o que falta
porque em ti
há suficiência
Não me sinto completo
sinto-me inteiro
que é diferente
O último amor
não me salva
me acompanha
Não me corrige
me aceita
Sei que o tempo
nos desgastará as bordas
nos roubará a pressa
nos curvará o corpo
Mas se restar um gesto
uma lembrança
um olhar que reconhece
Será contigo
E quando as palavras rarearem
quando o mundo encolher
quando os dias forem poucos
Que seja tua presença
meu último idioma
Não te chamo de destino
nem de acaso
te chamo de escolha
Escolha repetida
todos os dias
até que não haja mais dias
Se este for o amor final
que seja assim
sem espetáculo
sem fuga
Um amor que não se busca
porque já foi encontrado
Um amor que não se anuncia
porque vive
Meu último amor
é este
que não termina
porque nunca precisou recomeçar.