"Um mundo que a maioria nem vê"

| Conto | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Marlete Dacroce
Publicado em 08 de Abril de 2026 ás 16h 59min

 "Um mundo que a maioria nem vê"

Ninguém entendia o cansaço de Celeste.

Naquela tarde, ela estava sentada no sofá, olhando para o nada, ou pelo menos era isso que parecia. A televisão estava ligada, mas ela não assistia. O celular vibrava na mesa, ignorado. A janela aberta deixava entrar a luz do fim do dia, suave para alguns, cortante para ela.

— Como é que tu podes estar tão cansada se tu não fizeste nada hoje?

A pergunta veio simples. Mas dentro de Celeste, ecoou como um trovão.

Ela não respondeu.

Pensou como explicar o invisível?

Como dizer que, desde o momento de sair da cama, o mundo já havia chegado alto demais?

O barulho da rua invadiu o quarto antes mesmo de abrir os olhos. Os carros passando, um cachorro latindo, uma conversa distante tudo ao mesmo tempo, tudo sem filtro. Depois, a luz. Aquela luz branca atravessando a cortina como se não pedisse licença e invadindo o olhar.

Levantar era esforço.

No café, as vozes se cruzavam. Perguntas simples, respostas esperadas, olhares que precisavam ser entendidos. Cada expressão carregava um enigma, cada silêncio exigia interpretação.

Celeste tentava acompanhar.

Sempre tentava.

Na rua, os passos, os motores, os cheiros, os rostos desconhecidos tudo chegava junto, pesado, forte, urgente.  Não havia pausa. Nem havia descanso.

Seu corpo sabia disso.

O coração batia mais atento do que deveria.

Os músculos, tensos, como se algo fosse acontecer a qualquer momento. A mente, incansável, tentava organizar aquele mundo que nunca vinha em ordem.

E então, quando finalmente ela parava, quando o corpo parecia imóvel, ela imóvel quando os outros viam apenas silêncio…

Era ali que tudo acontecia por dentro.

Celeste não estava fazendo nada, estava sobrevivendo.

Cada gesto simples do dia tinha cobrado um preço invisível e alto de mais. Um cumprimento, uma conversa, uma decisão pequena tudo exigia mais energia do que o mundo natural pudesse imaginar.

Ela não era preguiçosa. Nunca foi.

Seu cansaço não vinha da falta do que fazer, mas do excesso de sentir. Do excesso de perceber. Do excesso de tentar caber em um mundo que não era o seu.

Naquele fim de tarde, ela então fechou os olhos por um instante.

Não para dormir, mas para diminuir o mundo.

     Para poder encontrar um pouco de silêncio dentro de si.

E ali, naquele quase nada, havia uma batalha inteira que precisava ser travada, era o momento de conter a explosão de dentro do vulcão viver desse jeito… é fazer muito.

"Mesmo quando parece nada".

 

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