Um sonho encantado
Poemas | Poesia Lírica | Rosilene Rodrigues Neves de MenesesPublicado em 10 de Março de 2026 ás 06h 05min
Eu tive um lindo sonho
uma noite que virou dia
na vastidão do meu repouso.
As árvores,
ah, as árvores antigas,
não tinham mais apenas folhas
e galhos buscando o sol.
Elas eram feitas de livros,
não apenas madeira e seiva,
mas lombadas grossas,
páginas amareladas pelo tempo,
cheiro de papel e aventura guardada.
Cada tronco, uma estante monumental,
cada ramo, uma coleção suspensa,
o sussurro do vento
era o virar suave de mil volumes
em uma biblioteca sem paredes.
E os pássaros,
criaturas leves de penas coloridas,
não cantavam melodias vazias.
Eles eram os leitores vorazes.
Abaixavam-se aos pés das raízes-prateleiras,
bicos ágeis,
pinçando frases, deglutindo parágrafos inteiros.
Eram semeadores de palavras,
voavam alto,
e das suas gargantas saíam sementes de ideias,
que caíam leves sobre a terra,
prontas para brotar em novas histórias.
E as borboletas,
pequenos pedaços de céu dançantes,
eram as bibliotecárias,
delicadas e atentas.
Suas asas transparentes
refletiam a luz filtrada da copa-teto.
Com movimentos lentos, quase reverentes,
arrumavam os volumes invisíveis
que flutuavam no ar tranquilo daquele bosque letrado.
Guias silenciosas,
mostravam aos pássaros-leitores
onde encontrar a poesia esquecida,
o ensaio profundo,
o conto que precisava ser contado novamente.
Eu andava por ali,
pisando sobre musgo macio,
respirando o oxigênio misturado com tinta antiga.
Uma paz imensa me envolvia.
Naquele lugar sonhado,
a natureza e o saber eram um só corpo.
A sabedoria não estava presa em salas escuras,
mas vivia, pulsava, crescia
em cada folha que era um verso,
em cada voo que era uma citação.
E quando acordei,
o cheiro de terra molhada
ainda trazia um leve toque de pergaminho.
O silêncio do quarto
parecia um convite aberto
para buscar a próxima grande árvore-livro
escondida no meu dia.