Uma Carta a Dostoiévski: A Angústia na Era do Espetáculo
Ensaios | | Luciana KelmPublicado em 20 de Março de 2026 ás 16h 08min
Caro Dostoiévski,
Escrevo-lhe para refletir sobre como o senhor veria o nosso mundo hoje. Em seus livros, a angústia era o preço da liberdade. Era o peso de quem se sentia sozinho diante do universo e precisava decidir o próprio caminho. Hoje, essa angústia mudou de forma: ela não nasce mais do silêncio, mas do excesso de barulho. Não sofremos pelo vazio, mas por estarmos cheios de informações que não conseguimos entender ou sentir de verdade.
Na sua época, a comparação acontecia nos encontros sociais ou na disputa por uma posição na sociedade. Era algo entre pessoas que se conheciam. Agora, esse processo não para nunca. Pelas telas, olhamos a vida dos outros o tempo todo e nos sentimos menores. Se o seu personagem Raskólnikov vivesse hoje, ele não tentaria provar que é superior através de um crime; ele buscaria desesperadamente a aprovação de desconhecidos na internet. Seu erro não seria contra outra pessoa, mas contra a sua própria verdade, tentando ser alguém que não existe.
Acredito que o senhor diria que perdemos a nossa vida interior. Trocamos a conversa com a própria consciência pela exposição pública. O senhor falaria sobre o nosso medo de sofrer e sobre como tentamos esconder qualquer tristeza, quando, na verdade, o senhor sempre mostrou que é encarando a dor que descobrimos quem somos.
Seu novo livro poderia se chamar "O Homem Invisível na Multidão". Nele, o senhor contaria a história de alguém que, ao tentar ser notado por todos, acabou esquecendo de si mesmo. O senhor nos perguntaria: como encontrar a paz em um mundo que nos obriga a estar sempre ocupados e aparecendo para os outros?
A grande questão que deixo ao senhor é se o amor prático e real, aquele que exige esforço e presença, ainda consegue vencer as barreiras invisíveis que criamos entre nós e o próximo.