Uma Hora na Janela

| | 2026/4 Antologia Breves narrativas do cotidiano: entre histórias e versos do dia a dia | Maria Clara
Publicado em 23 de Abril de 2026 ás 22h 31min

No minuto três, o chuvisco caia pelo vidro, escorrendo e embaçando um pouco a vista do que havia lá fora, contudo eu podia ouvir os risos das crianças brincando e ver suas silhuetas através do véu de água, correndo alegremente nas poças. Assim durou aproximadamente sete minutos, visto que no minuto onze a chuva aumentou um pouco, e a mãe deles, a senhora que morava naquela casa amarela desbotada, começou a chamá-los para saírem da chuvarada, alguma coisa sobre pegarem um resfriado. Ela era uma senhora boa, gentil e educada, às vezes convidava os vizinhos para participar de confraternizações, embora eu não gostasse muito. A criançada correu para dentro da casa, rindo e brincando. Parecia ser o temporal passageiro, pois no minuto vinte e um ela parou devagar, a água corria pela rua, levando as folhas secas embora. No minuto vinte e cinco, um homem, que morava no velho casarão de madeira no fim da rua e tinha um nome que eu não sabia pronunciar, com a tinta descascando das paredes, passou com seu cachorro, um pastor alemão cujo nome eu não lembrava, que deve ter farejando meu cheiro, por quê latiu na minha direção animadamente antes de seu dono voltar a caminhar, sem ter me visto observando. 

Minuto trinta e dois, a essência de terra molhada ainda era bem evidente, o caminho estava praticamente deserto agora, exceto pela mãe da casa amarela, que ajudava os filhos dela a entrar no carro, talvez fossem ao mercado? Não pareciam tão arrumados para um passeio importante, como já vi ela os arrumando. Minuto trinta e oito. Algo se mexeu em uma árvore, quem sabe fosse o gato do vizinho vizinho da rua de cima? Ele subia lá às vezes. Só que ele parou a algum tempo, desde que uma mãe pássaro deixou seus ovos ali, ela passou a afugentar o felino, o mantendo longe dos filhotes, que era algo rotineiro. 

No minuto quarenta e cinco, o sol estava se escondendo, o céu assumindo aquele tom de laranja, que lembrava calma e tardes tranquilas, sinto o cheiro de café torrado vindo de algum lugar por ali, um aroma leve, calmante, trazendo-me recordações de épocas que não voltam, mas não consigo identificar.  Minuto cinquenta, os postes vão se acendendo aos poucos, um por um, conforme a noite ia surgindo. No minuto cinquenta e quatro, finalmente a grande estrela some, dando lugar à lua. Mas onde estavam as estrelas pequenas? Será que elas ainda estão adormecidas, escondidas sobre as nuvens? Ou simplesmente, a luminosidade exagerada daquelas lâmpadas que rodeiam o bairro afugentaram? 

Minuto cinquenta e nove, resolvo fechar as cortinas, essa era a rotina, dia após dia, noite depois de noite, era raro quando algo diferente acontecia por ali, e quando acontecia, era um flash, um momento rápido de pouca duração, mas me lembro de cada detalhe de cada momento, naquelas uma hora que observava a janela.

Comentários

Olá! Utilizamos cookies para oferecer melhor experiência, melhorar o desempenho, analisar como você interage em nosso site e personalizar conteúdo. Ao utilizar este site, você concorda com o uso de cookies.