Uma Luz na Escuridão

| Prosa Poética | 2026/9 Antologia O invisível que a palavra revela | Isolti Cossetin
Publicado em 22 de Setembro de 2026 ás 19h 36min

Uma Luz na Escuridão

Houve um tempo em que a noite chegava sem pedir licença, espalhando suas sombras pela casa inteira. Não havia interruptores para afugentá-la, nem o clarão de telas para preencher os vazios do silêncio. A vida acontecia em outro compasso  e, sem saber do que o mundo do lado de fora dispunha, nada nos parecia faltar.

Ao se despedir o sol, a rotina pedia um ritual simples: acender o lampião. Aquela chama acanhada, incapaz de alcançar os cantos mais distantes dos cômodos, sobrava para iluminar o que realmente importava. Bastava para refletir nossos rostos, aquecer as vozes e dar forma às histórias que nasciam ao redor da mesa.

Olhando para trás, compreendo que a pequenez daquela luz era só ilusão dos olhos. Havia claridades secretas que não dependiam da eletricidade. Eram os risos que cruzavam os corredores, as invenções de criança brotando do nada, a liberdade sem limites de um quintal que parecia infinito. O tempo era comprido, desdobrado na presença inteira de quem sentava ao lado, sem pressa e sem disputa por atenção.

Sem que percebêssemos, as sombras dançavam nas paredes enquanto tecíamos riquezas silenciosas. Eu não sabia que aquelas vozes virariam acalanto na memória; que algumas presenças se tornariam saudade pura, ou que aquele tempo tão generoso acabaria por correr tão depressa. Eu apenas vivia. E talvez esteja aí a maior delicadeza da lembrança: o poder de nos devolver, maduros, aquilo que a infância saboreou sem precisar nomear.

Hoje, cercados por artifícios que clareiam a escuridão num estalo e encurtam qualquer distância, temos quase tudo ao alcance das mãos. No entanto, em certos dias, o peito ainda busca o aconchego daquela casa iluminada por um único sopro de fogo.

Faltava energia na fiação, é verdade. Mas nunca nos faltou luz. Ela habitava a união, o toque, a escuta atenta e o afeto que nos unia, um tesouro imune ao tempo que segue guiando a vida inteira. Naquela casa, a noite podia ser escura. A vida, nunca.

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