“Vazio existencial”

Conto | Marlete Dacroce
Publicado em 23 de Fevereiro de 2026 ás 18h 48min

“Vazio existencial”

 

Maria sempre dizia que vestia por liberdade.

Naquela sexta-feira, diante do espelho, escolheu o vestido mais curto que tinha.

Girou, ajeitou o cabelo, passou o batom vermelho.

Olhou para o próprio reflexo como quem faz uma pergunta silenciosa:

Agora eu estou bonita o suficiente?

O celular vibrou. Mensagens no grupo:
          — Hoje você vem poderosa, né?
Ela sorriu. Precisava ouvir aquilo.

Na festa, entrou como quem pisa num palco. Risadas, música alta, luzes piscando.

Sentiu os olhares. Primeiro um. Depois vários. Endireitou a postura.

O coração acelerou, não de alegria, mas de alívio.

Estão olhando.

Durante horas, alimentou-se daquilo. Comentários, elogios, alguns olhares que a incomodavam, mas, até esses serviam como confirmação de sua existência.

Quando alguém parava de reparar, ela ajeitava o vestido. Ria mais alto. Postava um story.

“Meu corpo, minhas regras”, repetia para si.

No banheiro, sozinha diante do espelho iluminado, a pergunta voltava, mais sincera dessa vez:

Quem está fazendo as regras?

Então ela percebeu que não era sobre o vestido. Nunca foi. Era sobre o vazio que surgia quando ninguém olhava. Era sobre o medo de não ser suficiente sem aplausos.

Maria sempre se cuidou. Gostava de se sentir bonita. Não havia nada de errado nisso.

O problema era o peso que colocava sobre o próprio corpo, como se ele fosse seu único valor, sua única moeda de troca com o mundo.

Sua identidade girava em torno de uma única pergunta:
Será que estão me notando?

E aquilo cansava.

Na volta para casa, no banco de trás do carro, abriu o celular. Muitas curtidas. Muitos comentários. Mesmo assim, sentia um vazio estranho, como se tivesse atuado a noite inteira.

Porque no fundo ela sabia.

Não era liberdade.
Era dependência.

Dependência do olhar dos outros para se sentir inteira.

E ali, observando o reflexo da própria imagem na janela escura do carro, percebeu algo que nunca tinha admitido: Quanto mais ela buscava a validação, menos se reconhecia.

Era um ciclo silencioso.
Quanto mais precisava ser vista, menos se via.

Na semana seguinte, abriu o guarda-roupa outra vez. Pegou um vestido.

Depois outro. Parou!

Dessa vez, não perguntou se chamaria atenção.

Perguntou se com esse se sentia confortável.

Talvez a verdadeira liberdade não estivesse no tamanho da roupa.
Mas no tamanho da segurança dentro do peito.

E, pela primeira vez, Maria saiu de casa sem subir no palco.
Saiu apenas para viver.

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